Artigo

OS EXAMES: UMA ESCOLA EMPOBRECIDA E CENTRADA NA COMPETIÇÂO INDIVIDUAL

Ana Benavente, maio 2014

Ana Benavente, maio 2014

 

Entre as medidas educativas adoptadas pelo actual governo há uma que, recebida em relativo silêncio e com alguma “benevolência” dos media que fazem opinião, merece ser analisada e debatida: OS EXAMES.
Com efeito, o actual governo PSD/PP decidiu que, em todos os finais de ciclo da escolaridade obrigatória (4ºano, 6ºano, 9ºano), haveria “exames nacionais” com pompa e circunstância.

No 12º ano ( e no 11º ano, em disciplinas terminais) já havia exames que têm, simultaneamente, um papel de prova de acesso ao ensino superior. Nem esses exames me convencem da sua justiça mas, enfim, num mundo tão preso a representações do passado e a formalismos que se confundem com “rigor”, aceitemos que os exames do 12º ano, final da escolaridade obrigatória, contem como uma parte da avaliação.
Bem diferente é o sentido da “reposição” de exames nos outros graus de ensino em tempos de desinvestimento na escola pública. Não é uma medida menor nem “bondosa”, longe disso, e só posso lamentar que não tenha sido mais debatida e combatida por todos os que sabem que esse modo de avaliação é pobre e é ditado por razões que nada têm a ver com a qualidade da aprendizagem das crianças e dos jovens. Aliás, vêm trazer perturbações várias à vida das escolas porque todas as crianças e jovens que não estão no final do ciclo deixam de ter aulas enquanto se realizam os exames, o que é absurdo e cria problemas adicionais aos pais e umas longuiiiiissimas férias sem sentido que ninguém ousa denunciar. Pois aqui fica. O calendário escolar português actual é absurdo e a este tema voltarei em breve.
Consultando dados europeus (Eurydice, 2009) sobre os exames nos sistemas educativos dos nossos concidadãos europeus, verificamos que os exames podem ser obrigatórios, facultativos ou indicativos para efeitos de orientação do sistema. As situações são muitíssimos diferentes de país para país. Entre nós, alguém deu por algum debate público sobre o tema?

 

Por exemplo, especialistas e professores em Malta, Países Baixos, Eslovénia e Reino Unido reconheceram que alguns exames – em particular os que representam desafios importantes para os alunos –geram pressão excessiva potencialmente prejudicial para a sua motivação. Cinco países – Irlanda, França, Hungria, Suécia e Reino Unido – introduziram já há bastante tempo exames nacionais sem incidência nos percursos escolares individuais dos alunos e, na sua maioria, por amostragem.
Mas voltemos a Portugal.
Eis cinco argumentos, entre muitos outros que as ciências sociais e humanas nos facultam, contra estes exames tal como se processam actualmente.
1º decidir os modos de avaliação dos alunos influencia brutalmente as pedagogias que as escolas e os professores podem desenvolver. Nas escolas vive-se em função dos exames, preparando as crianças e os jovens para questões padronizadas e uniformes, deixando de lado actividades que, por não serem avaliadas, acabam por ter um papel “menor”. Refiro-me à educação artística, cívica, ambiental, para a saúde, refiro-me à orientação dos curricula em função das realidades vividas em cada comunidade, daí partindo para a universalização dos conhecimentos. Esta situação é ainda mais gravosa no 1º ciclo.
o regresso destes exames traduz uma insuportável desconfiança do governo em relação ao trabalho realizados pelas escolas e pelos professores. “Sem exames, não há aprendizagem”, afirmava-se há mais de 50 anos. Nada de mais errado. As aprendizagens significativas para a vida de cada um de nós são as mais polivalentes, as que têm sentido e são, por isso mesmo, apropriadas por cada criança e por cada jovem. Tantos exames feitos com base em matérias “para esquecer” logo a seguir… Digam se não é verdade.
os exames são a modalidade mais pobre de avaliação. Deixam de lado as competências pessoais e para a vida, limitam-se a obter respostas a testes, sob forma de perguntas “fechadas” (cruzinhas) ou “abertas” em que só uma resposta é verdadeira. Os alunos mostram saber “aquela” matéria, limitada ao que pode ser perguntado por escrito. Mas terá a Escola só esse papel? Não é por acaso que, na história da Escola, os exames foram sendo deixados para trás à medida que outras modalidades – trabalhos individuais e de grupo, projectos, realizações e muitas outras – eram capazes de avaliar os conhecimentos e os modos de os usar, a criatividade, a cooperação, o sentido prático e muitas outras competências decisivas para a formação dos mais novos.
os exames antecipam a competição individual destruindo os laços de socialização. Num exame, é cada um por si, tal como na vida querem que sejamos indiferentes aos outros e individualistas a 1.000%. É esta ideologia do actual governo e de quem quer a escola ao serviço de alguns e não de todos que os exames concretizam. E começam logo no 1º ciclo, para que impere desde cedo a sede de competição.
Finalmente, os exames confrontam as escolas com uma espécie de “Campeonato nacional”, em que os resultados obtidos lhe atribuem um lugar de “melhor” ou “pior” escola. Ignorando quem são os alunos e as comunidades em que vivem, calando as condições de trabalho, premeiam-se as que obtém resultados mais elevados, penalizam-se as que não os obtêm. Quer-se assim formatar a escola como uma fábrica de exames e não como um espaço educativo da maior importância. Sabemos que é nos 1ºs anos que se decide o percurso escolar de cada um.
EM SUMA, ESTE RETROCESSO EMPOBRECEDOR É INSUPORTÁVEL NO SEC. XXI, NEGA A RIQUEZA DO CONHECIMENTO, IMPÕE À ESCOLA E A TODOS OS QUE NELA VIVEM A IGNORÂNCIA E A IDEOLOGIA DOS ACTUAIS GOVERNANTES.

 

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