Artigo

[“Os donos da humanidade” e uma entrevista a Chomsky – apontamentos de leitura]

Relemos o opúsculo de Chomsky intitulado “Os donos da humanidade” publicado pela primeira vez em 1993 e incluído, em edição mais recente, num conjunto de textos do mesmo autor sob o título de “Un monde complètement surréel”.

Relemos o opúsculo de Chomsky intitulado “Os donos da humanidade” publicado pela primeira vez em 1993 e incluído, em edição mais recente, num conjunto de textos do mesmo autor sob o título de “Un monde complètement surréel”.
De onde retirou Chomsky a noção de “os donos da humanidade”? Foi buscá-la a Adam Smith, na obra “A riqueza das nações” e fez sua a afirmação daquele de que “ a ignóbil máxima dos donos da humanidade : tudo para nós, nada para os outros” tinha deixado traços. E vai apresentar factos de como não só deixou traços como se armadilhou o mundo para a preservação da máxima.

Quem são então os donos da humanidade? Para Adam Smith, filósofo do séc XVIII, em tempos pré-capitalistas, eram os “mercadores e os manufactureiros” que usando do seu enorme poder, arquitectavam as políticas de estado causadoras de “terríveis desgraças” aos países a elas submetidos e ao seu próprio país.
Hoje, diz Chomsky, os donos da humanidade são as sociedades supranacionais e as instituições financeiras que dominam a economia mundial e que, ao instituirem o “capitalismo da economia de mercado”, retiram os maiores lucros e eliminam a possibilidade de qualquer risco para si próprias. E fazem-no, desde 1960, através de medidas proteccionistas dos países industrializados em aliança com programas do FMI e do Banco Mundial, provocando a redução dos rendimentos dos países do Sul a quem incentivam a exportação para os sectores mais ricos.
Há um “governo mundial de facto” sob a forma de uma “nova idade imperial”, como lhe chama o Financial Time de Londres, constituída pelo FMI, o Banco Mundial, o grupo dos Sete, o GATT ( acordo sobre as tarifas aduaneiras e o comércio), os bancos e as instituições que servem as sociedades transnacionais e que têm como principal protagonista os EUA. Chomsky refere em concreto factos em que assenta essa “nova idade imperial” e o seu alcance antidemocrático: os acordos de livre-troca norte-americanos, ALENA e GATT, que asseguram regras visando o fito proteccionista norte-americano com custos enormes para os países do Sul; a protecção dos direitos de propriedade e o apagamento dos direitos dos trabalhadores, cláusulas denunciadas em relatórios que referem os efeitos que revelam gigantescos proveitos para as sociedades americanas e um travão aos direitos dos trabalhadores, prejuízos para o ambiente, a saúde e a segurança.
Em consequência surgem instituições governamentais que “servem os interesses do poder económico transnacional privado” transformando a geografia mundial num conjunto de “pequenas ilhas altamente privilegiadas no meio de um mar de miséria e desespero”. Essas instituições são constituídas por dois tipos de elites hostis à democracia, Chomsky reconhece tendências que as distinguem: as tidas por “progressistas” que reduzem a função das populações à de simples “espectadores interessados na acção” e de eleitores pontuais da classe dirigente que fica livre assim para governar sem a intromissão dos “ignorantes que metem o nariz em todo o lado”; e as que atribuem às populações apenas o papel de meros espectadores e defendem “operações clandestinas, a censura e medidas que visem o controlo pleno das tecnologias futuras, nomeadamente a biotecnologia, permitindo às empresas privadas controlar a saúde, a agricultura, a sobrevivência, medidas de que será refém a maioria desmuniciada (…)”. Chomsky conclui alertando para o esvaziamento da democracia, processo necessário à concretização da máxima dos donos do mundo. Diremos nós então da necessidade de alertar para o perigo da naturalização desta lógica económica que unifica o pensamento e induz ao conformismo.
Esta conjectura leva-nos a recordar uma entrevista que Chomsky deu ao Le grand Soir (http://www.legrandsoir.info/Chomsky-L-education-est-ignorance-Extrait-du-livre-Class-Warfare.html). O entrevistador, David Barsamian, confrontado com o paradoxo da actual imagem de Adam Smith como herói da direita face à reinterpretação que Chomsky dele faz, questiona-o sobre essa aparente contradição. Chomsky diz ter concluído duma leitura atenta da obra do filósofo setecentista que há um fosso entre a realidade e o mito que escamotiou o que não servia os propósitos neoliberais e que isso é válido para o liberalismo clássico em geral. Diz ele que “ Os fundadores, como Adam Smith e Wilhem Humbolt, um dos grandes representantes do liberalismo clássico, e que inspiraram John Stuart Mill – eram o que chamamos socialistas libertários”. Smith era um homem que vinha das Luzes, e, como os pensadores dessa época e os do início do Romantismo, defensor da ideia de que ” as pessoas são guiadas pela simpatia e por sentimentos de solidariedade bem como pela necessidade de controlar o seu próprio trabalho”. Mais adiante na entrevista, Chomsky defende a importância de fazer com que as pessoas “saiam da sua prisão intelectual”, cativas do pensamento único e retorna a Adam Smith quando este, optimista quanto à natureza do homem, afirma que “são necessários grandes esforços para conseguir tornar as pessoas tão estúpidas e ignorantes quanto é possível a um humano ” . Di-lo numa chamada de atenção para apetência de parte do sistema educativo nesses esforços que induzem à passividade e à obediência e lembra agora J. Dewey como herdeiro da tradição das Luzes e do liberalismo clássico que assegurava que “não se pode falar de democracia se não houver controlo democrático da indústria, do comércio, da banca, de tudo. O que significa um controlo pelo povo que trabalha nas instituições e pelas comunidades”.

 

Graça Aníbal, OP.EDU
 

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