Artigo

[Llovet, Jordi (2011). Adiós a la Universidad. El eclipse de las Humanidades. Traducción de Fuentes, Albert). Barcelona: Galaxia Gutenberg – Círculo de Lectores]

Partindo da narração autobiográfica de quarenta e três anos de experiências académicas enquanto discente e docente da Universidade de Barcelona (entre 1965 e 2008), Jordi Llovet (Barcelona, 1947) apresenta, de forma tão humorística quanto culta, uma séria reflexão acerca do estado atual do ensino superior universitário espanhol, na área das Artes e Humanidades.

Partindo da narração autobiográfica de quarenta e três anos de experiências académicas enquanto discente e docente da Universidade de Barcelona (entre 1965 e 2008), Jordi Llovet (Barcelona, 1947) apresenta, de forma tão humorística quanto culta, uma séria reflexão acerca do estado atual do ensino superior universitário espanhol, na área das Artes e Humanidades. No entanto, ao longo da leitura desta obra o leitor rapidamente percebe que o autor procurou aplicar o ideal de Friedrich Schelling, segundo o qual 'na ciência, como na arte, o particular só tem valor quando acolhe em si o geral ou o absoluto’ (apud Llovet, p. 27), misturando com subtileza diferentes contextos (do pessoal ao macroestrutural) e visões de mundo (prática e teórica).
Na sua essência Adiós a la Universidad. El eclipse de las Humanidades é uma forte crítica ao atual modelo europeu de ensino superior, e ao atual modelo de sociedade ocidental, ambos baseados na ideologia neoliberal de mercado. No plano académico, a implementação do processo de Bolonha, e a consequente tentativa de transformar a educação em um bem económico lucrativo, trouxe consequências nefastas para o ensino superior. Ao longo do livro Llovet analisa sem pudores essas consequências, nomeadamente: (i) a fragmentação dos saberes académicos; (ii) a dissipação dos saberes passados; (iii) a restrição do papel da universidade à preparação para uma ocupação sócio laboral específica; (iv) a implementação das agências nacionais de avaliação e acreditação e a consequente burocratização da vida académica; (v) a avaliação da docência baseada somente no número de publicações realizadas e na importância da respetiva revista científica; (vi) a restruturação impensada dos ciclos de estudos e o afastamento do princípio da equidade devido à falta de sistemas de apoio para os estudantes mais carenciados. O ex-catedrático da Universidade de Barcelona apresenta igualmente argumentos que colocam em questão os objetivos proclamados pelo processo de Bolonha. A promoção da mobilidade de estudantes e professores no espaço europeu, e promoção da autonomia de aprendizagem dos estudantes encontram-se à partida condenadas ao insucesso na medida em que, no primeiro caso, não existe uma base linguística europeia, e no segundo, verifica-se uma impossibilidade de práticas de acompanhamento individualizado por parte dos docentes.
A obra evidencia que estes males são especialmente prejudiciais para a área das Humanidades, na medida em que neste caso a educação não apresenta uma ligação direta com o mercado financeiro ou laboral, mas antes representa uma função pública e social. Esta área de estudos enfrenta assim um inevitável eclipse. O subtítulo da obra, encerra igualmente um sentido mais pessoal para o autor, na medida em que este foi forçado a solicitar a sua jubilação, aquando da extinção da Licenciatura em Literatura Comparada da qual era regente. A respeito desta área de estudos, Llovett descreve também os problemas relacionados com os interesses académicos instalados pelos cursos de doutoramento, acatados pelos professores com mais poder, pois permitem que estes desenvolvam os seus interesses pessoais e exigem simultaneamente menor dedicação.
Ao longo da obra encontra-se ainda uma reflexão acerca dos atuais problemas da sociedade da Europa ocidental, que contribuem para o agravamento da qualidade do ensino, nomeadamente a secularização societal e consequente perda de valores absolutos; a despolitização do corpo estudantil, devido à massificação do ensino superior e à partidarização da vida política; a disseminação do entendimento do ensino superior como ferramenta de ascensão económico-social; e a generalização das novas tecnologias de informação e comunicação na vida quotidiana, e a consequente transformação dos seus utilizadores em autómatos.
A reflexão do autor acerca da realidade espanhola, que o leitor português pode utilizar como ferramenta para refletir acerca da sua própria realidade, termina com a defesa de três regressos ao passado: (i) a criação de uma elite de pensadores, por parte das universidades, capaz de promover os ideais da democracia e combater os atuais regimes da plutocracia, da burocracia e do livre mercado; (ii) a aproximação das ciências sociais e humanas aos elementos essenciais da vida (promoção do civismo) e à análise histórico-crítica da realidade; (iii) uma conceção de educação humanista e sócio-histórica, que promova o reconhecimento a supremacia da linguagem (oral e escrita) no processo de ensino-aprendizagem. Nas palavras do autor, “todo obliga a concluir, pues, que hacer hincapié en el retorno a las formas de educación basadas en el arte la palabra y en la discusión intelectual podría convertirse en un aliado muy eficiente para volver a ofrecer a las democracias el sentido, o el valor, que nunca deberían haber perdido” (p.345).
 

Adriano Moura

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