Artigo

[Strain, John; Barnett, Ronald; Jarvis, Peter (ed.) (2009). Universities, Ethics and Professions: Debate and Scrutiny. Nova Iorque: Routledge]

[Strain, John; Barnett, Ronald; Jarvis, Peter (ed.) (2009). Universities, Ethics and Professions: Debate and Scrutiny. Nova Iorque: Routledge]

O argumento central incide nos novos significados atribuídos à Universidade e nos desafios que a expansão do ensino superior vem trazendo às instituições de ensino, enquanto espaços independentes de debate sobre ética. Como ponto de partida, Strain, Barnett e Jarvis remetem-nos para o fato de, até ao século XX, terem sido as autoridades religiosas e as universidades, juntamente com as culturas literatas, a representar o maior contributo para o debate sobre o tema. Desde então, são chamados a disputar este espaço vários actores diferenciados da sociedade, desafiando o exercício de autoridade das universidades em torno do debate e reflexão sobre ética. Defendem os autores que têm sido os diferentes stakeholders e os grupos profissionais, pela implementação de um determinado modelo de “cultura profissional”, a padronizar os valores morais e uma consciência ética, que posteriormente são desenvolvidos e implementados pela comunidade académica.
Como nos demonstra Universities, Ethics and Professions a ética, tal como a política, é um campo de reflexão e de debate intrinsecamente contestado. Segundo os autores, a mudança de paradigma da integridade académica, produzida dentro das universidades, resulta da estreita relação das universidades contemporâneas com o mercado de trabalho e com as organizações profissionais. Discutir a ênfase dada pelas entidades profissionais corporativas às questões éticas, analisando as respostas das universidades à sua influência e às exigências cada vez maiores do mercado capitalista global, torna-se indispensável. Que impacto exerce afinal, esta demanda ética no recrutamento, no ensino e na investigação científica das universidades?
As instituições universitárias reivindicam como critérios de avaliação do seu sucesso, a ética no processo de ensino, bem como a promoção da excelência das práticas educativas e curriculares e na busca, eticamente responsável, do conhecimento. Hoje em dia, a estas duas medidas parece inevitável associar uma terceira: a capacidade de inserção profissional e de preparação dos seus alunos para o exercício de uma profissão. É esta terceira medida que diferencia hoje, mais do que noutras épocas, as universidades entre si. Na medida em que se exige às universidades sinais concretos de competitividade, e com os alunos a converterem-se paulatinamente em clientes, aumenta a pressão para que os modelos éticos e profissionais sejam concebidos em conformidade com critérios definidos pelas entidades empregadoras. Esta realidade torna difusa a definição de fronteiras entre as comunidades académicas e os grupos profissionais, comportando alguns de riscos para as universidades.

“(…) What sort of independences do we want universities to have from the professions and from business? How much do we treasure the freedom of academics to occupy scholarly freedoms to reflect, to critique and to broaden horizons? How much do we want the activities of universities to be commercial transactions? (p. 177) ”

Contudo, se por um lado esta relação ameaça a liberdade das universidades enquanto espaço de pensamento crítico, por outro lado, ela também reflete a vitalidade do debate sobre ética nas universidades contemporâneas. Como tal, defendem os autores que é urgente discutir o potencial do contributo das universidades para um debate informado sobre integridade e ética dentro e fora do contexto académico.
À medida que as organizações profissionais definem as suas próprias políticas sobre ética, criando uma linguagem codificada nas esferas profissional e pública, simultaneamente, aumentam a ênfase dada às questões éticas. Esta tendência é evidente no UK Council for Industry and Higher Education (2005), que encoraja as universidades a desenvolver as suas próprias políticas de ética académica, provando a vitalidade deste debate no contexto académico.
É verdade que o comprometimento desinteressado com a verdade permanece altamente valorizado em contexto académico e o debate ganha fôlego dentro deste espaço, contrastando com outras esferas profissionais que obedecem a interesses particulares, sejam eles interesses empresariais ou governamentais. Por outro lado, o carácter ético do comprometimento das universidades com a ciência, com o conhecimento e com o ensino está relacionado historicamente com um certo grau de independência que lhes é atribuído. Uma vez que os profissionais e os grupos que os representam fazem também parte da sociedade civil, é importante que as universidades encorajem o rigor intelectual na crítica das práticas profissionais e de cidadania.
Longe de se esgotar o debate sobre o tema nas páginas do livro, termina-se a sua leitura com a convicção de que, privilegiando o pluralismo disciplinar e o respeito pela intrínseca natureza contestada da ética, as universidades, enquanto permanecerem fiéis ao comprometimento desinteressado pelo conhecimento, continuarão a constituir-se enquanto importantes esferas de reflexão e debate sobre ética e integridade académica. 

Denise Esteves
 

 

« [Freire, Paulo. (1993). Política e Educação. São Paulo: Cortez Editora.] - [Tomás, Catarina (2011), Há muitos mundos no mundo. Cosmopolitismo, participação e direitos da criança. Porto: Edições Afrontamento, 227 páginas.] »